Noticias da Universidade Norte do Paraná - Nº 004 - Dezembro 2003

pág. 23

Em tempo integral

Escola-modelo

Parceria entre Unopar, Prefeitura e Emater melhora condições de vida de comunidade rural


Há pouco mais de um ano, na Fazenda Experimental da Unopar, em Tamarana (63 quilômetros ao sul de Londrina), foi inaugurado um projeto-modelo de educação infantil. O Centro Educacional Rural Unopar nasceu oficialmente em setembro de 2002, resultado de uma parceria da universidade com a Prefeitura de Tamarana e a Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater). O principal objetivo: melhorar as condições de vida da comunidade rural.
O Centro Educacional foi concebido com a finalidade de reunir – nuclearizar, na linguagem acadêmica – as cinco escolas municipais daquela região, que antes funcionavam separadamente: Escola Vila Rural, Presidente Bernardes, Cruz da Malta, Ângelo R. Merlo e Raimundo Correia. O Centro Educacional abriga aproximadamente 160 crianças, do pré à 4ª série. A nuclearização obedece a uma norma do Ministério da Educação (MEC), que não mais permite escolas isoladas e multiseriadas.
Na parceria, a Unopar ficou responsável pelas instalações e pelo trabalho dos estagiários dos cursos de Pedagogia e Odontologia (para orientação de higiene bucal). A Prefeitura de Tamarana ficou encarregada do transporte e alimentação dos alunos, dos salários de

  
  
    Bolos, doces e salgados:alimentos nutritivos e
    baratos

funcionários e professores e materiais didáticos. Já a Emater encarregou-se dos cursos ministrados junto à comunidade local.
Segundo a diretora do Centro, Rosilda Vanderlei Caetano, os projetos desenvolvidos pela Emater são criados de acordo com a realidade da comunidade. "Cada conteúdo é trabalhado envolvendo elementos do dia-a-dia das famílias, sempre com participação dos pais", ela destaca. A diretora lembra que o objetivo é resgatar valores da vida no campo que foram perdidos ao longo do tempo, como forma de conscientizar toda a comunidade sobre a importância da vida rural.
Rosilda conta ainda que, por ocasião dos cursos da Emater, são desenvolvidas atividades com os pais, como teatro e apresentação de trabalhos dos alunos, proporcionando uma  convivência prazerosa entre pais e filhos.
O Centro Educacional funciona em período integral (das 8 às 16 horas), com atividades como aulas de conto, computação, pesquisa em biblioteca – montada através do Projeto Biblos, desenvolvido pelo Curso de Pedagogia da Unopar – e trabalhos na horta. O Centro conta ainda com cozinha, varandas, setor administrativo e sala de informática.
"Tudo isso diferencia a escola das demais existentes na região. Tanto que a procura é muito grande", afirma a diretora. "A estrutura foi construída para 120 alunos, e estamos com 40 a mais. Estamos usando até o refeitório para dar aulas, somando assim seis salas."

Receitas nutritivas:
uma terapia de grupo

Entre os cursos já administrados pela Unopar no Centro Educacional Rural, muitos contribuem para a adoção de hábitos mais saudáveis pela comunidade. Um deles foi administrado em julho pela assistente social Maria Regina dos Santos, da Emater de Curitiba. Com 20 anos de experiência em cursos de culinária, Maria Regina ensinou as cerca de 25 mães presentes a usarem sobretudo a criatividade na hora de preparar o alimento da família. Recuperar receitas tradicionais que estão meio esquecidas e diversificar a dieta do dia-a-dia com alimentosmais nutritivos também foram preocupações da assistente social. Ela ensinou que, sem aderir a ingredientes caros e estranhos ao meio rural, é possível concentrar minerais e vitaminas à alimentação diária. Tudo isso sem mudar o sabor ou o tipo de preparação. Na cozinha do Centro Educacional foram preparadas delícias como sagu de beterraba, farelo de arroz torrado (ingrediente de várias receitas, por ser rico em ferro, vitamina B1 e niacina), torta de talos e folhas, gelatina de batata-doce, arroz com casca de abóbora, maionese de fubá e farofa com casca de banana. O cardápio foi definido na hora, a partir dos ingredientes trazidos pelas mães. "Quisemos mostrar que tudo pode ser aproveitado", disse Maria Regina.
As mães, ainda surpresas com o resultado de algumas combinações, garantiram que suas famílias iriam comer melhor dali para frente. "Eu jogava muita coisa fora, como os talos das verduras. Acho que agora vai dar até para fazer mais economia com os alimentos", afirmou a dona-de-casa Célia Granado Amorim, garantindo que gostou de tudo o que foi preparado, mas principalmente da torta de folhas e talos. "Não imaginava que isso tudo fosse possível. É vivendo e aprendendo..."
A mesma empolgação foi demonstrada por Doroty Aparecida da Costa Rezende: "Foram usados ingredientes que a gente não imaginava, como as folhas de batata-doce, abóbora e mandioca." Mãe de cinco filhos e com uma horta no fundo do quintal, ela também afirmou que, com as informações que recebeu, a família terá mais opções de alimentação.
Além de ensinar alternativas para se comer melhor,
os cursos ministrados pela assistente social da Emater funcionam como uma espécie de terapia de grupo. Com formação em sócio-terapia, Maria Regina explica que nos últimos 10 anos tem percebido que as mulheres se soltam no ambiente culinário, "principalmente quando trabalham com as mãos, nas massas". Segundo ela, o exercício estimula as participantes a se desarmarem, exteriorizando muitos de seus problemas.
“Não chego ao nível de trabalhar questões psicológicas, mas aproveito para trabalhar alguma coisa de relacionamento. Na cozinha a gente tem uma interação maravilhosa", garante Maria Regina. É também no agradável ambiente culinário que estas mulheres melhoram sua auto-estima, na medida em que aprendem a importância de preparar bem – e com sentimento – o alimento da família.
"Já trabalhei até com adolescentes, dando orientação sexual enquanto fazíamos receitas de biscoitos", conta a assistente social, reafirmando que no caso do curso ministrado em Tamarana a idéia foi melhorar o nível de alimentação da comunidade. "Muitos aqui plantam, colhem e comercializam legumes e verduras, mas não comem.”
                                     
                        

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