A ética e a pedagogia ética
Leila Moraes Godoy1

Resumo

O ensaio vincula a Ética à Pedagogia, projetando-se nesta os valores perseguidos por aquela. Verifica-se a necessidade do envolvimento do educador com projetos marcados pela Ética, como instrumento para enfrentamento dos problemas cogitados pela modernidade.

Palavras-chave : Ética, Pedagogia, modernidade.

GODOY, L. M.  A ética e a pedagogia ética. unopar Cient., Ciênc. Hum. Educ., Londrina, v. 1, n. 1, p. 155-157, jun. 2000.

"Todo mérito de virtude está na sua prática."

                  Cícero – De Officiis, 1,6.

 

O título do presente artigo pode parecer redundante. Antes que se esclareça um suposto abuso da palavra ética, a identificar aparente transbordância, pretendo partir de um prisma tópico, de um lugar comum. Explico-me melhor. Tem-se a impressão (falsa) de que todos sabem o que é ética. Quero até acreditar que toda pessoa, medianamente culta, responderia enquete nesse sentido, proclamando que conhece e que sabe, efetivamente, o que é ética. No entanto, mudada a pergunta, pedindo-se que se explique o que se sabe (ou o que se pensa que se sabe), os resultados seriam outros. Pouca gente poderia satisfatoriamente explicitar, em pormenor, o que é ética. Mesmo porque a expressão comporta tantas leituras, tantas divagações, tantas concepções, que não teríamos (e nem poderíamos) como colocar um fim a propósito de assunto tão apaixonante.

Tradicionalmente, ética é subsumida como estudo ou reflexão, científica ou filosófica e, eventualmente, até teológica, em âmbito de costumes ou ações humanas. É assunto eminentemente cultural. Também chamamos de ética algo da própria vida, quando conforme comportamento identificado ou idealizado como correto. Insisto, é tema cultural, inegavelmente vinculado às variáveis humanas.

Como reflexão científica, que tipo de ciência seria a ética? Teria o status de ciência? Eventual resposta sugere e exige dissemelhanças entre moral e ética, se é que as há. Etimologicamente, moral, do latim mos, moris , carrega um significado de costume, de algo sedimentado pelo tempo, pela prática reiterada e rotineira, com plena aceitação no espaço social. Assim, utiliza-se a expressão "bons costumes" como sinônimo de moral ou de moralidade (Catão, 1995).

Pode se inferir que quando se aceitam costumes e valores morais estabelecidos pela sociedade, não se faz necessário discutir sobre eles. Aceitação generalizada afasta qualquer dialética. É a retórica do silêncio. Entretanto, quando a validade de determinados valores ou costumes é objeto de questionamentos, surge a necessidade de se fundamentar teoricamente esses valores vividos de forma prática, concreta. E para não se concordar com eles é factível criticá-los. Falamos, então, de "ética", do grego ethos, significando modo de ser. A ética, portanto, vem a ser o conjunto de práticas morais de uma determinada sociedade ou os princípios que regem essas práticas. As relações entre ética e moral são menos semânticas e mais pragmáticas.

Didaticamente, costuma-se separar os problemas teóricos da ética em duas searas. Falaríamos em problemas gerais e em problemas fundamentais. Entre esses últimos, nomeadamente, liberdade, consciência, bem, valor, lei e problemas específicos de aplicação concreta, quais, ética profissional, ética sexual, bioética e outros. O campo é muito vasto. Tudo é humano, e nada do que é humano nos deve ser estranho, já advertia Terêncio.

Ética, de tal modo, sugere palavra chave que enceta e exprime dilemas da modernidade. É um dos temas recorrentes do momento, uma estratégia de ação e um projeto para estes dias em que vivemos. Ética vem carregada de espaço biológico, com amplo trânsito em temas de genética. Afinal, quem tem medo da eugenia? Assim, numa primeira leitura, ética vem tratando tópicos como esterilidade e direito de ter filhos, inseminação artificial, fecundação "in vitro", doação de esperma, de óvulos, de embriões, inseminação heterólogas, que, aparentemente, reduzem-se em bioética.

No âmbito econômico e financeiro vem a ética do mercado, da concorrência, da globalização, dos negócios, do cada um por si, de Deus por todos. Também a ética do prazer, do epicurismo, que defendo a boa escolha dos prazeres. E na simbiose o mercado do sexo, a propaganda, evidenciando a sexualização do pé, da perna, da roupa íntima.

Na estrutura governante, vem nova avalanche que nos prostra entre ética, ou falta de ética. Será que todos leram e assimilaram Maquiavel? Parece que a separação entre ética e política vem sendo regra de hoje. Em todos os lugares parece que os fins justificam os meios, que o poder é um fim em si mesmo.

Resta, então, a necessidade de se conhecer os princípios éticos. Mas qual ética? Aquela cujos princípios somente são válidos para um consciência que, pela ação ou pelo contato com aqueles que agem, liberta-se, interagindo com a totalidade do real.

É aqui que vem a pedagogia ética, tomando como epicentro o educador, paradigma da sociedade em que vive. Na análise dessa relação, a de educador e educando, só há espaço para um comportamento exigido se o exigente é o próprio modelo perfeito. Mas seria isso realisticamente possível? Ou, ainda, desejar o impossível, como tocar o céu com as pontas dos dedos, também não é falta de ética? Ou excesso? Tantas perguntas... Porém da realidade concreta do educando pode o educador extrair aquele espaço para sedimentar um mínimo ético real, palpável.

Assim, surge uma pedagogia ética, proposta que emerge desse excerto, como alternativa para que possamos dialogar com os desafios que o cotidiano nos impõe. A pedagogia ética reconhece que o racionalismo e o positivismo não respondem aos problemas do momento. O mundo de Descartes, todo feito de leis e de extensão; o mundo de Comte, povoado de estados teológicos, metafísicos, positivos, são mundos que, aos nossos olhos, não oferecem instrumentais ou resposta para essa  nova linha de civilização.

A pedagogia ética propõe compromisso com a verdade, com a transparência. Assim, deve buscar sua linha de ação na subjetividade do educando, no eu de seu material humana. O momento é de compreensão. A ética é um estado de alma social e deve ser captada. Ao educador a tarefa de subtrair anseios, moldar comportamentos e, dentro de modelos, de referencias e de paradigmas sólidos, firmes, agir em constante diálogo, apontando, indicando, mostrando caminhos.

Longe o tempo de imposições. O esgotamento do modelo convencional, de saber racionalista e positivista, esgotado, está na própria seiva, e o turbilhão que nos assola é inconteste prova de sua ineficiência para os nossos desafios. Pensemos, pois, numa pedagogia ética, entendendo-se como tal um agir educacional centrado na concretude do educando, desenhando modelos extraídos da realidade que a todos circunda. Assim, interagindo no pensar, não se impõe comportamentos.

A pedagogia ética instrumentalizará o educando para que possa sublimar os moderníssimos problemas colocados pelo errôneo entendimento sobre a ética. Problemas que exigem ação imediata, alopática, fulminante. O implemento da proposta potencializa o diálogo, a compreensão.

Assim sendo, é necessário que os educadores estabeleçam uma ligação entre as noções éticas e as situações vividas pelo educandos. Caso contrário estarão apenas transmitindo noções abstratas, insuficientes para o pleno exercício dos valores éticos da vida cotidiana. Necessário se faz elaborar com subjetividade o referencial ético indispensável à vida em sociedade.

A ética deve conter, por parte do educador, o empenho para que todos sejam capazes do exercício pleno da liberdade na comunidade, o que supõe responsabilidade social. Explicitada, assim, a exuberância do uso da expressão. Afinal, a par da ética, cogita-se de uma pedagogia ética, essa, desdobramento daquela, ambas, na construção de um mundo melhor e mais suportável, suscitando uma praxis, na imagem de Cícero, que também foi educador, para quem todo mérito de virtude está em sua prática.

Bibliografia

CATÃO, Francisco. A pedagogia ética. São Paulo : Vozes, 1995.
GADOTI, Moacir.  Histórias Das Idéias Pedagógicas. São Paulo : Ática, 1996.
________.  Pensamento Pedagógico Brasileiro.  6. ed.  São Paulo : Ática, 1995.
NEWTON, Bignotto et alÉtica. São Paulo : Ed. Schwacz, 1997.
SÁ, Antonio Lopes.  Ética. São Paulo : Atlas, 1996.
VAZQUEZ, Adolfo Sanches.  Ética.  17. ed.  Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1997.

The ethics and pedagogy

Abstract

This essay links Ethics to Pedagogy, screening in the latter the values haunted for the first one. The paper affirms the necessity of Ethics to Pedagogy as a tool in order to face the problems of our times.

Key words: Ethics, Pedagogy, modernity.

Godoy, L. M.  The ethics and pedagogy. unopar Cient., Ciênc. Hum. Educ., Londrina, v. 1, n. 1, p. 155-157, jun. 2000.

1 Docente de Didática Geral e integrante do Núcleo de Ação Pedagógica na Universidade Norte do Paraná. Endereço para correspondência: Av. Rio de Janeiro 1643/801. 86050-150. Londrina, Paraná, Brasil. E-mail: leiped@yahoo.com.br